Bauru e grande região

Segundando

As novas cavernas

por João Jabbour

03/03/2019 - 07h00

Desde os primórdios o homem vive em bandos. E cultiva essa mania até hoje. As novas cavernas são os grupos de whatsApp. Se você não está em pelo menos um deles, pode ser chamado de jurássico. Está fora da nova ordem mundial. Quase segregado. Também pode ser confundido com um extraterrestre.

E mais do que o hábito de viver em grupos, os humanos conservam neles os mesmos comportamentos que os moldaram ao longo dos últimos 350 mil anos. Em grupos de whatsApp acontece de tudo um pouco. Do baixo ao mais elevado instinto, do insulto à postagem da linda foto do bebê, os frequentadores do aplicativo mais pop do Brasil praticam desde uma serena relação a atrocidades.

É uma catarse geral. Os tímidos se soltam, os chatos extrapolam, famílias se 'reúnem' durante quase o dia todo, 7 dias por semana, em uma tela de celular; os engraçadinhos pensam que estão num palco da Broadway, os metódicos e sistemáticos enviam 'bom dia', 'boa tarde' e 'boa noite' todo santo dia com desenhos e frases surradas de autoajuda; os políticos nos sufocam com seus 'grandes feitos', os detratores se encorajam para caluniar e difamar e profissionais fazem dos smartphones workstations ambulantes 24 horas ao dia. Para fechar esta terra sem dono de forma gloriosa, nudes correm freneticamente pelas ondas eletromagnéticas dos celulares e, vez ou outra, vão parar em grupos errados ou endereços inconvenientes e transformam-se em pequenos e grandes escândalos.

“Os tímidos se soltam, os chatos extrapolam, os detratores caluniam...”

Mas 'temos' de estar em algum ou alguns desses grupos, não há outro jeito. Até onde consegui compreender a ferramenta, há formas de bloquear alguém em um grupo (o líder deve fazer isso), de silenciar as notificações de novas mensagens, posso sair de um grupo (mas é difícil porque vai chatear alguém), não deixar marcar de azulzinho o recebimento das últimas mensagens para que não fiquem cobrando resposta ou, então, simplesmente desligar o telefone e viver no ostracismo.

O envio de confidências verbais em grupos ou endereços errados é o campeão das gafes no whats. "Vazou um áudio meu falando em linguagem de bebê com a nossa cachorra, em um grupo em que estou. Todo mundo riu... Depois, pedi desculpas", relata uma colega de trabalho, num engraçado exemplo de como a vida é perigosa no whatsApp.

Outro exemplo hilário. Uma amiga fazia duas coisas ao mesmo tempo (aí mora o perigo). Por dever de ofício, observava as notícias postadas em um grupo de policiais e falava com uma amiga em particular, simultaneamente. Papo vai, papo vem e ela escreveu: "Tudo lindo!". Era a sequência do diálogo com a amiga, mas postou no grupo da polícia, onde, por uma daquelas traquinagens de Murphy, haviam acabado de postar uma foto de oficiais garbosamente perfilados em uma solenidade. Quando foi alertada por colegas, correu desfazer o engano, que lhe rendeu muitas e muitas galhofas.

Recentemente, até diálogos do presidente da República 'vazaram' e geraram mal-estar. É o preço de se usar um equipamento digital. Uma conversa segredada ao pé d' ouvido só vaza se uma das duas partes pisar na bola.

O corretor automático é outro pesadelo, principalmente quando teclamos rapidamente uma mensagem e enviamos instantaneamente. Teve um caso emblemático outro dia. A frase enviada foi: "Eu adoro Dênis..." Mas o maldito corretor entrou em ação e, na pressa, a palavra Dênis foi 'corrigida' e criou uma tremenda saia justa para o sujeito.

Agora, tem culpas que o corretor não pode assumir. Pensar e escrever incontinente é uma delas. (1) "Oi, querida, feliz aniversário". (2) "Falsa...". (1) "O quêêêê!!!". (2) "Não!!!, quis dizer obrigado..."

Chegou o Carnaval.

Cuidado com as fotos que vai enviar.

Fim de papo.